Fazer faculdade em São Paulo, a maior cidade da América Latina, e ser caipira da gema, natural de Cerquilho - SP, invariavelmente leva à dualidade. Se estou cá, tenho saudades de lá. E vice-versa.
Logo que eu vim pra cá eu fiquei me achando um pouco, sabe? É que eu era muito sangue de barata... Deixava as pessoas me falarem a merda que elas queriam e ficava quieta. Mas sei lá, ter sido capaz de passar na USP (na
UUSSPP) - ah, a supervalorizada, deificada, USP! - e vir morar sozinha aqui com 17 anos me fez melhorar minha opinião sobre mim mesma. Confesso que à época não me ocorreram coisas como "mas puxa vida, eu passei raspando num curso pouco concorrido" ou "mas que sorte a minha, mamãe e papai bancam e eu não preciso trabalhar". Com 17 anos é o máximo ir pra faculdade mais deificada do Brasil e me virar sozinha em São Paulo. Agora eu rio da minha empolgação...
Além disso, eu me encantei com a diversidade cultural aqui. Foi uma experiência única na vida ir pra um lugar em que eu tinha com quem conversar e me sentia à vontade, e não uma freak metida a nerdona. Por todas essas coisas, declarei meu amor inabalável à cidade grande.
E como se não bastasse, o interior começa a dar-me motivos para odiá-lo. Vai parecer um momento #classemediasofre mas na minha concepção é tudo verdade. EXPERIMENTA fazer faculdade pública (ainda mais a salve salve USP!) e dizer isso a quem sempre te conheceu no interior. As reações são de fazer pensar, no mínimo. Em dois meses de faculdade eu comecei a só dizer que estudava em São Paulo, deixando nas pessoas a vaga e satisfatória ideia de que eu estudo em alguma particular desconhecida. E para ilustrar, contarei um causozinho ou dois.
Eu tinha um colega de escola, muito bom aluno, que estava prestando um curso bem mais concorrido que Física. Ele não passou por muito pouco e foi pra Fatec. Aí, no final do meu primeiro ano, eu estava numa balada (!!! longa história) quando encontrei ele e a namorada. A primeira coisa que ele me diz é:
-E aí, mulher, quando você vai publicar um artigo? Eu já estou publicando com a minha orientadora, que ALIÁÁÁÁS tem doutorado na USP!
Fiquei tão estupefata que não sabia nem o que responder. Primeiro porque no meu mundo só publica artigo na graduação aluno muito aplicado, no último ano, logo antes do mestrado e olhe lá. Ainda por cima, o meu orientador - olha só! - também tinha doutorado na USP. Mas como a maioria dos professores com quem tive aula ou travei conhecimento na USP, ele tinha pós-doutorado no exterior (Cambridge no caso dele). Não se enganem, caros leitores (leitores?), eu fiquei com vontade de delicadamente atirar um desses fatos - como se atira uma luva de pelica convidando ao duelo - à face do meu ex-colega. Mas afinal, para quê? Para reforçar a lenda de que aluno de faculdade pública se acha a última coca-cola gelada do deserto?
Fiz cara de árvore e placidamente concordei com tudo. E aí vem a cereja do bolo, o que achei mais engraçado no incidente: a namorada dele ficou com pena de mim.
-Aiii, amor, não faz assim com ela, coitadinha... A área dela deve ser mais difícil mesmo!
E pra segurar o riso, como faz?
Tinha esse cara também que estava um ano na minha frente no colégio. Acho que ele era meio traumatizado porque o irmão mais velho dele era uspiano e ele não conseguiu passar. Bem, ele queria engenharia, que é super difícil também. No fim ele foi cursar engenharia numa particular em Sorocaba... E eu achava um barato que ele não podia me ver online no MSN que já vinha perguntar: "E aí, como estão as coisas na faculdade?"
Eu sempre fui honesta pra qualquer um que perguntasse isso. E dizia: estou me ralando pra passar nas matérias. E o cara começava: "Aaaaaaaah, eu não tiro menos que 8,5 nas matérias, eu sou um aluno muito bom..." Velho, velho! Faz Cálculo I da Física com Ivan Chestakov e depois conversa comigo, ok?
Só mais esse:um filho de um amigo da minha mãe estava precisando de ajuda com 'matemática'. Ele estava, assim como eu, no primeiro ano - só que de Ciências Contábeis na UNIMEP. Eu achei que as mães tinham se confundido e que na verdade ele precisava de ajuda com Cálculo! Lá fui eu, toda solícita, com o Guidorizzi na mochila. Qual não foi minha surpresa quando constatei que o guri não sabia matemática de 5ª série! (Ele não sabia que se f(x) = x² + x etc. pra obter f(2) ele tinha que enfiar o 2 no lugar dos x. Sério.) Enfim. Eu o ajudei com a lista de exercícios dele e acabei tendo que ficar um pouco na casa dele enquanto minha mãe ia me buscar. Aí começam os desaforos:
-É verdade que vocês de faculdade pública são tão pobres que não têm dinheiro pra comprar carteiras e têm aulas sentados no chão?
Sim. Isso mesmo. Aí eu quis ser engraçadinha e tirar uma com a cara dele. Apreciem meu fracasso retumbante:
-Imagina! A gente não pode levar essas lendas tão a sério. Veja você, eu mesma ouvi esses dias de um aluno de faculdade particular que viu seno de x sobre cosseno de x, cortou x com x, s com s e ficou en sobre co!
Ele me olhou com a mais bela cara de tacho. Duh - pensei para mim mesma - o bocó não sabe que sen(x)/cos(x) = tan(x)! É isso aí. Ele não entendeu que eu estava fazendo piada.
Já que estou falando disso mesmo, acho que vale comentar a lenda de que aluno de faculdade pública é tudo pobre. Pra passar naquele vestibular muitos tiveram que pagar bons colégios e cursinhos, né? Tenho colega que estudou no famoso Bandeirantes em São Paulo (pesquisem a mensalidade do Band, amores!) Claro que, felizmente, entram muitas pessoas menos favorecidas financeiramente - embora, tristemente, sejam minoria. A propósito, não vejo mérito em ser """rico""" com 18 anos. Com essa idade, meu bem, você não construiu patrimônio nenhum; o carro e as roupas de grife que você ostenta mamãe e papai trabalharam pra te dar. E mais: não vejo vergonha em ser """pobre""". Pra mim uma pessoa que se esforçou pra passar numa faculdade pública tem muito mais mérito do que alguém que ganha tudo de mão beijada dos pais - mas é claro que essa opinião me favorece, não é?
Voltando ao assunto (esse post vai ficar grande!). Esse tipo de reação (que, no caso de pessoas mais polidas, resumia-se a olhar-me com desconfiança - é, muita gente reagia à notícia de que eu estava na USP como se eu fosse uma mentirosa salafrária) fez-me gostar ainda menos de ir ao interior. Honestamente? Quando vou, pra visitar a família, eu fico o menos tempo possível pela rua e rezo para não encontrar conhecidos. É sempre meio esquisito...
Então é isso. Odeio o interior e amo a capital. Certo?
Não.
Eu não consigo não gostar do lugar em que nasci. Lá no fundo, eu amo aquela gente simples e sem malícia, trabalhadora e esforçada, eu amo a terra roxa (que na verdade é vermelha) de que meus ancestrais tiraram sustento, a cidade bonita e pacata - e até aquele jornal de Cerquilho que só tem classificado e quem morreu, nasceu, casou, fez aniversário - tudo em fotos, coloridas para os mais abastados - e, claro, uma sessão em que os cidadãos brincam de ativismo político e descem o sarrafo na administração da cidade. Eu GOSTO de poder abrir a carteira na rua sem pensar em ser assaltada.
All in all, o que me chateia mesmo é a mentalidade estreita e tacanha. A meninA saiu de casa e foi fazer curso de homem? Que escândalo!
Uma observação: eu falei o post inteiro da divinização da USP porque eu acho que as pessoas têm uma imagem muito errada dela. É um lugar NORMAL, com pessoas NORMAIS. Eu só diria que lá é mais fácil achar alguém com um parafusinho solto. E eu não conheci ninguém lá que me tenha parecido "burro". Espíriro de porco? Tem, de monte. Mas uma coisa que aprendi na vida é que espírito de porco tem em todas as etnias, credos, classes sociais e sexos.